Texto de Ana Claudia Pereira.
No século XVIII, negras alforriadas nascidas na Costa da Mina
formavam, em solo brasileiro, domicílios compostos basicamente por
mulheres. As que conseguiam acumular alguns bens deixavam heranças para
escravas, ex-escravas e filhas. Muitas delas registraram em seus
testamentos histórias de solidariedade em momentos de dificuldade
material e doença, como mostram estudos da historiadora Sheila de Castro
Faria. A palavra “feminismo”, para elas, não existia.
Na cultura iorubá, “ialodê” é um título conferido a mulheres de
reconhecido valor para a comunidade, funcionárias de Estado,
representantes das mulheres em instâncias de poder e governo, além de
ser atribuído às orixás Oxum e Nanã. Jurema Werneck analisou o destaque e
a liderança conquistadas por sambistas como a cantora Alcione junto às
brasileiras negras, associando-as às ialodês. Para ialodês e sambistas,
“feminismo” não é uma referência central.
“Feminismo” consolidou-se como o termo mundialmente conhecido para
falar da luta das mulheres pela emancipação a partir da mobilização de
europeias e norte-americanas. Reivindicando melhores condições de vida,
imaginavam um mundo melhor a partir de suas próprias experiências
sociais: para as operárias, a prioridade era adquirir direitos,
enfrentar a exploração capitalista, melhorar as condições de trabalho
nas fábricas; para as mulheres de elite, o termo muitas vezes esteve
associado à demanda de mulheres brancas e ricas pela participação no
mundo de privilégios sociais de homens também brancos e ricos.
“Feminismo” foi, desde sempre, um termo disputado por diferentes
projetos de sociedade, alguns mais igualitários, outros menos.
Viajando por muitos caminhos, conferiu ferramentas importantes para
as lutas das mulheres latino-americanas, fossem elas novas ou antigas.
E, ao criar raízes na região, ganhou a cara da nossa diversidade,
moldou-se de acordo com a imensa desigualdade racial e social que
caracteriza nossos países.